Estudo confirma canábis como porta de saída de dependências

Um estudo científico acaba de confirmar que a canábis é uma alternativa mais eficaz e segura no tratamento de dependências quando comparada, por exemplo, com os fármacos da classe dos opiáceos, entre os quais a morfina ou a metadona.

A Cannapress falou com João Santa Maria, do GAT e do In-Mouraria que viu na canábis a solução para a sua adicção à heroína e à cocaína.

Levado a cabo por cientistas do Scripps Research Institute, um instituto norte-americano sem fins lucrativos dedicado a estudos médicos, o estudo recentemente publicado atesta o potencial do canabidiol (CBD) — um dos principais canabinóides encontrados naturalmente nas plantas da espécie Cannabis Sativa L. — na redução do risco de recaída durante o tratamento do alcoolismo ou da adicção gerada pela cocaína. Publicado pela revista Neuropsychopharmacology, o artigo avalia o potencial “anti-recaída” do CBD em situações de stress, ansiedade ou impulsividade.

Para a experiência foram utilizados ratinhos com historial de auto-administração de álcool e cocaína, aos quais foi aplicada, durante sete dias e com intervalos de 24 horas, uma solução transdérmica à base de CBD. A conclusão indica uma acção benéfica perante estados de vulnerabilidade e realça ainda uma outra dimensão: tratando-se de um tratamento de “breve duração”, os efeitos são “duradouros”. Isto porque a reabilitação dos animais foi atenuada “até cinco meses, aproximadamente”, ainda que os vestígios de CBD no sangue e no cérebro permaneçam detectáveis apenas durante “três dias”, lê-se no relatório recentemente publicado.

O CBD, ao contrário do THC (Tetrahidrocanabinol), não tem efeito psicoactivo e actua como um inibidor da dor, tendo já sido comprovada a sua eficácia junto de doentes que passam por quimioterapia ou que sofrem de espasmos musculares, por exemplo. Este que é um dos cerca de 100 componentes químicos da Cannabis Sativa L. deu azo ao primeiro (e único) medicamento à base de canabinóides autorizado em Portugal – o Sativex. Mas ainda que legalizado desde 2012, o acesso a este fármaco em forma de pulverizador bucal, indicado na Esclerose Múltipla, apresenta muitas barreiras. Além de ter um custo de 500 euros, o Sativex é apenas conseguido por encomenda, sendo para isso necessária uma receita médica especial, como confirmou o Infarmed em declarações à Cannapress no passado mês de março.

João Santa Maria, do In-Mouraria. Foto retirada do vídeo da sua apresentação no GAT – Grupo de Activistas em Tratamento

In-Mouraria: A experiência vivida na pele
Apesar de já apontado como um País pioneiro na descriminalização das drogas, Portugal cedeu o seu lugar na linha da frente ao não ter ainda reconhecido o potencial da canábis como possível terapia de substituição. O centro In-Mouraria, em Lisboa, que actua na área de prevenção de danos, é um reflexo da descriminalização. A casa abriu para receber pessoas que utilizam ou já utilizaram drogas, de forma a ajudá-las nas várias questões das suas vidas, seja apoio psicológico seja a resolução de questões judiciais, bem como o consumo assistido, se for o caso.

João Santa Maria, 48 anos, está ligado ao projecto In-Mouraria desde o início. É mediador do GAT (Gabinete de Activistas em Tratamentos), entidade promotora do In-Mouraria, projecto para o qual foi convidado a juntar-se como “par”, ou seja, alguém que já viveu na própria pele a dependência e, após recuperação, dá apoio aos que passam pelo mesmo problema.

Em entrevista à Cannapress, o activista contou como a canábis o ajudou a ultrapassar 13 anos de dependência de heroína e cocaína: “A canábis não liga muito bem com estas substâncias”, começou por explicar.

João já tinha experimentado várias formas de tratamento, sem nunca obter resultados prolongados. “Frequentei centros de desintoxicação, recorri à metadona, que ainda hoje é uma terapia de substituição muito utilizada mas que nunca funcionou comigo”, refere. Foi então que, no ano de 2000, decidiu recorrer à canábis para fazer a sua primeira grande paragem. “Percebi que quando fumava não me apetecia consumir outras drogas e quando consumia outras drogas não fumava canábis”, referiu numa das conferências ou audições em que costuma participar, atestando a capacidade da canábis como terapia de substituição no seu caso.

“A canábis não me ajudou apenas a superar possíveis recaídas. Ajudou-me a atenuar efeitos secundários provocados pelos medicamentos no tratamento de vómitos e dores. Nem tinha vontade de sair de casa”, sublinha.

Durante cinco anos João conseguiu manter-se longe da heroína e da cocaína, até que um dia, enquanto atravessava um momento profissional mais difícil, não consegue adquirir a substância junto do fornecedor habitual e é confrontado com a compra de cocaína.

A recaída durou apenas seis meses, tempo suficiente para João Santa Maria perceber que não queria voltar ao passado. “Nesse momento segui o mesmo processo realizado em 2000. Estive internado durante dez dias e depois voltei a recorrer à canábis como terapia de substituição. Até hoje!”

A via fumada é a alternativa para João Santa Maria

A alternativa fumada
João confessa que utiliza a canábis “da forma mais terapêutica possível”, ainda que seja da forma fumada. Com o passar dos anos, foi estudando autonomamente os efeitos que a substância lhe provocava até descobrir a dosagem ideal. No entanto, queixa-se dos entraves relacionados com o acesso, a falta de informação e de acompanhamento médico. “A terapia de substituição funciona quando tens acesso ao medicamento e quando sabes as dosagens adequadas. Seria uma mais-valia a legalização da canábis, porque evitaria alguns problemas, como o facto de nunca sabermos o que estamos a comprar ou o facto de haver pessoas que se dão bem com uma variedade da planta e outras não. Além disso, como nunca sabemos o que estamos a consumir, fazer desta uma terapia de substituição acaba por se tornar um desafio. Tem de haver controlo de qualidade e um acompanhamento adequado. Se formos a uma farmácia comprar Valium, por exemplo, e não soubermos qual a dosagem indicada a tomar, o medicamento não vai fazer o devido efeito e isso acontece também com a canábis”, conclui o activista.
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Foto de destaque: D.R., retirada do Blog 3Toke

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