Javier Pedraza: “A Canábis é uma medicina efectiva e segura”

Javier Pedraza Valiente, médico de clínica geral especializado em tratamentos com canábis e derivados entre Espanha e Portugal, investiga a área da canábis medicinal desde 1998. Do estudante da Faculdade de Medicina com as ideias mais “malucas”, passou a ser o médico mais requisitado. Através do site da Cannativa dá consultas com desconto para sócios.

Com um currículo inquestionável na área da canábis medicinal, o conhecido Doctor Pedraza é sócio e membro fundador da Cannativa, tendo ainda fundado o Observatório Espanhol de Canábis Medicinal e, mais recentemente, a Sociedade Ibero-Americana de Medicina Canábica, durante um congresso mundial na Colômbia. Numa pequena pausa de trabalho na Urgência de Pediatria do Hospital de Beja, Javier Pedraza falou sobre o universo da canábis à Cannapress.

De onde surgiu o seu interesse pela Canábis Medicinal?
O meu interesse pelo uso terapêutico da canábis começou em 1998, após ver uma revista espanhola chamada Cânhamo. Naquela altura estava mesmo no início, era o número 2 da revista, e ao lê-la vi que falava do uso terapêutico da canábis. Nessa altura era um bocadinho estranho, já que na Faculdade de Medicina a única informação que nós médicos recebemos é que a canábis é uma substância com potencial de abuso e que pode ter muitos efeitos secundários, podendo até significar o início do consumo de outras substâncias. Decidi, então, aprofundar mais aquela informação e descobri que a canábis é uma planta com muito potencial terapêutico. A partir daí comecei os meus estudos de uma forma auto-didacta e tenho vindo a desenvolver vários trabalhos de investigação que têm sido apresentados em diferentes congressos, desde a Sociedade Espanhola de Investigação sobre Canabinóides (SEIC) à International Association for Cannabis as Medicine (IACM). Formámos também o Observatório Espanhol de Canábis Medicinal (OECM) e depois da minha última estadia na Colômbia, há uns meses atrás, criámos a Sociedade Ibero-Americana de Medicina Canábica.

Javier Pedraza num cultivo de canábis medicinal em Israel

Neste seu percurso, em algum momento sentiu que era um médico diferente por se interessar pela canábis enquanto medicina?
Sim, claro! Desde o início, ainda na faculdade, percebi que os meus colegas me viam de forma diferente, “Ah Javier, tu és maluco, então vais dar canábis aos doentes, quando é claro que provoca esquizofrenia?! Vais encher as urgências de psiquiatria de doentes! ” É curioso, porque agora são os meus próprios colegas da faculdade que entram em contacto comigo para pedir ajuda, porque têm um familiar ou com cancro ou com uma doença neuro-degenerativa, e eles próprios já têm ouvido que a canábis pode ajudar. Portanto, eu passei um bocadinho de ser rejeitado por uma parte dos meus colegas a não só ser aceite como ser procurado para ajudar. Para mim é um grande grau de satisfação ter passado de ser o médico proibido ao médico procurado.

Sente de alguma forma que foi um pioneiro desta área em Espanha?
Quando os próprios doentes falam do uso terapêutico de canábis, os médicos ainda ficam muito espantados, mas depois, quando vêem que os doentes melhoram e que realmente há uma base científica suficiente para justificar o uso terapêutico da canábis, acabam por contactar-me e por pedir mais informação. Mudar o paradigma do médico, de ver a canábis como uma droga de abuso e passar a vê-la como uma planta com um grandíssimo potencial terapêutico, com muito poucos efeitos secundários, é algo que faz um bocadinho ‘crash’ na mente dos médicos, e para mim é interessante estar no meio das duas partes.

Não existe em toda a história da humanidade uma morte por overdose de canábis que tenha sido cientificamente demonstrada.

Como é que vê a abertura dos médicos em Portugal para a canábis medicinal?
Eu já tenho muitos colegas oncologistas portugueses que não aconselham directamente a canábis, mas que põem os seus doentes em contacto comigo, porque sabem da experiência de outros doentes que funciona. Talvez os mais reticentes sejam os psiquiatras, porque a experiência que têm com canábis é a parte mais negativa, os doentes que desenvolveram problemas psicóticos, ou uma esquizofrenia que estava latente, e que a canábis despoletou. É claro que a canábis não produz esquizofrenia, mas se uma pessoa tem uma esquizofrenia latente a canábis pode ter tendência para desencadear o primeiro surto psicótico. Como é essa a experiência que os meus colegas psiquiatras têm, então é normal que eles vejam a canábis como algo perigoso. A canábis é uma substância com muito potencial terapêutico, mas não é uma substância inócua, tem que ser usada com precaução e tem que haver parâmetros de segurança para evitar que apareçam efeitos secundários.

Mas há patologias em que já foram comprovados os efeitos benéficos da canábis, nomeadamente de variedades sem THC, a substância psicoactiva.

Em consulta com uma paciente

Uma especialidade que tem mostrado muito interesse tem sido a neuropediatria, porque o canabidiol, que é um canabinóide não psicoactivo, tem um grande potencial para tratar as epilepsias fármaco-resistentes em crianças. Os pais que estão há anos a lutar contra uma doença terrível, como é a epilepsia fármaco resistente, em crianças muito pequeninas, de repente descobrem que com uma molécula que é muito segura e que não tem efeitos secundários, conseguem controlar as crises dos seus filhos. Estamos a falar de crianças que têm 90 crises diárias e que passam a ter oito ou nove. Isso é uma melhoria espectacular. Os pais que falam com os neuropediatras, no início até podem ficar um bocadinho reticentes, mas assim que vêem resultados acabam por aceitar. Já há imensos neuropediatras em Portugal que conhecem os estudos e já está claro que o canabidiol funciona.

Mas como é que isso funciona na prática, os médicos portugueses podem prescrever?
Actualmente só existe um medicamento na Europa à base de canabidiol (CBD), que é o Epidiolex, mas esse medicamento ainda não está à venda nas farmácias. O que existe sem Portugal são muitos suplementos alimentares, que são extractos da planta de cânhamo industrial, de onde se extrai o CBD. Então, os médicos não podem prescrever, porque não há nenhum medicamento que eles possam recomendar, por isso os pais têm que ir à Internet ou a qualquer loja que venda produtos derivados do cânhamo, como o óleo de CBD, para administrar aos seus filhos. Ainda não há muita informação, mas há muito interesse latente, porque à medida que mais pais utilizam, mais crianças ficam com redução das crises convulsivas e o ‘boca-a-boca’ é a melhor publicidade que há. Então chega a uma altura em que os próprios neuropediatras começam a entrar na dinâmica de esquecer que a canábis é uma droga e começam a vê-la como uma medicina.

Num momento em que se está a estudar a possibilidade de legalizar a canábis para fins medicinais em Portugal, um dos grandes entraves poderá ser o desconhecimento e o preconceito em relação à planta. Como é que se pode reverter esta situação?
Acho que é muito importante transmitir à população a mensagem de que a canábis, quando utilizada como medicina, é altamente efectiva e altamente segura. Ninguém pensa em deixar de utilizar morfina só porque há pessoas que utilizam derivados do ópio, como a heroína, por exemplo. A canábis e os derivados de canábis são substâncias proibidas, mas já há evidência científica suficiente que demonstra que tem um potencial terapêutico muito elevado. Portanto, agora há que reverter a imagem da planta de que é só uma droga, para voltar ao que já existia antes da proibição – que é uma planta medicinal com elevado valor terapêutico. Acho que a forma mais fácil da população ficar ciente do potencial da canábis é pegar nos testemunhos das pessoas que o utilizam. Aquelas pessoas que têm uma dor crónica, que já nem a morfina consegue controlar, e quando utilizamos óleos de canábis por baixo da língua conseguem descansar. Aqueles pais que têm uma criança com epilepsia e que já experimentaram tudo e mais alguma coisa, encheram os seus filhos de cocktails de fármacos na tentativa de controlar as crises e não conseguiram e assim que começaram a dar o canabidiol que vem do cânhamo, que não tem nenhum efeito secundário, as crises pararam. A mulher que se farta de vomitar por causa da quimioterapia, que não consegue controlar as náuseas, que está a perder imenso peso e que assim que começa a utilizar a canábis as náuseas param, aumenta o apetite, ganha peso e a quimioterapia passa a ser de uma forma menos agressiva. São esses testemunhos que fazem mudar a mente e sobretudo, o que faz mais mudar a mente, é quando nos toca a nós, porque quando um dos nossos familiares fica doente, utiliza canábis e melhora, até o mais proibicionista acaba por fazer um clique e pensar: isto não pode ser proibido, se está a ajudar o meu familiar não pode ser proibido para o resto das pessoas. Nesse sentido, Portugal está muito bem posicionado, o Infarmed já autorizou há anos o cultivo de canábis com fins medicinais, ao pé do Alqueva há um grande cultivo de marijuana para ser utilizada para medicina, portanto não estou a ver qual poderá ser o problema do governo português, pois está a aceitar que a canábis tem potencial terapêutico. O problema é que se essa canábis depois é exportada para fazer medicamentos noutros países, se calhar estamos a fazer aqui um bocadinho ‘o macaco’, não é? Estamos a deixar aqui o terreno para que seja cultivado, quando nem deixamos os nossos doentes cultivar, o que não faz sentido nenhum. Acho que isto tem que ser revertido com a maior prontidão.

A saúde é um direito que está acima de qualquer lei nacional ou internacional

Qual seria a solução?
A solução? Seria que o governo estabelecesse quais são as normas estritas para que haja empresas que possam cultivar canábis de grau medicinal e definir quais seriam as potenciais empresas, idealmente portuguesas, que transformassem essa canábis em produtos de grau farmacêutico. E isto é importante porquê? Porque se vêem que a planta, per se, tem potencial terapêutico e uma pessoa pode ter as suas plantinhas em casa e pode utilizar essa canábis que até lhe pode fazer muito bem – até porque cultivar a própria medicina é altamente terapêutico -, também há pessoas que não querem ouvir falar da canábis, talvez porque tiveram algum familiar que teve um problema com a canábis. Mas se o médico lhe receita umas gotinhas, que vêm num frasquinho feito por um laboratório onde não aparece nenhuma folhinha, onde o que vem é “THC tantas gotas” e tal, e aquilo funciona, e vai conseguir esse produto com a mesma qualidade farmacêutica quer em Faro, quer em Lisboa quer no Porto, então é também efectivo. Portanto, acho que o ideal é ter a parte de grau farmacêutico, mas não é eliminar a parte de que a pessoa possa cultivar a própria medicina, até porque se uma pessoa cultiva aquilo que ela própria irá consumir e que lhe faz bem, em princípio não deve estar a saltar nenhuma lei, não é? O consumo de substâncias ilícitas no próprio domicílio não é criminalizado, nem em Espanha nem em Portugal. Então, um cultivo que esteja destinado a algo que não é ilícito, como é o próprio autoconsumo em local privado, não tem qualquer base para ser ilegal. Outra coisa é quando uma pessoa cultiva para que essa canábis chegue a terceiros. Mas quando o cultivo é para autoconsumo, e mais ainda quando é um autoconsumo terapêutico, não estou a ver qual é a ilegalidade e qual é o crime em procurar a melhoria da própria saúde.

A supervisionar canábis medicinal

Se Portugal tem potencial para cultivar canábis, porque é que não se produzem cá os medicamentos, em vez de exportar para outros países?
Para fazer isso, o governo tem que estabelecer quais são as normas para que uma empresa possa cultivar: normas de segurança, normas de transporte, requisitos para dar licenças de produção, de manufactura, de transformação, etc. O problema é que para que uma substância seja um medicamento precisa de estudos clínicos que demoram muitos anos a fazer e de investimentos de milhares de milhões de euros. É muito dinheiro e são muito anos de investigação. Quando, por outro lado, uma pessoa cultiva canábis, ou que tenha canábis de um amigo que cultiva e que faz uma extracção simples, se calhar tem um produto de melhor qualidade do que um produto farmacêutico, o que dá também a possibilidade de escolher muitos tipos de produto. Tenhamos em conta que, por exemplo a morfina é sempre a mesma molécula. Mas existem muitos tipos diferentes de plantas de canábis, por isso uns extractos têm efeitos mais euforizantes ou antidepressivos, outros têm efeitos mais relaxantes ou analgésicos, portanto numa mesma espécie, que é a canábis, nós temos toda uma farmácia. E transformar todas essas possibilidades em diferentes medicamentos vai levar muito muito tempo. Mas há doentes que não têm tanto tempo, doentes com cancro que precisam de uma solução já . E o governo tem que facilitar essa solução, se calhar não em forma de medicamentos, mas sim na forma de não perseguição dos doentes.

O direito à saúde está consagrado no Artº 64 da Constituição da República Portuguesa.
Na própria carta dos Direitos Humanos diz que todo o indivíduo tem direito à saúde, ou seja, a saúde é um direito que está acima de qualquer lei nacional ou internacional. Se estou a fazer algo que é bom para a minha saúde não posso ser perseguido por isso. Não tem lógica nenhuma.

No que respeita aos profissionais da saúde, acha que os médicos precisam de uma formação específica em canábis medicinal? E todos os médicos vão poder prescrever ou será algo apenas reservado aos especialistas?
É importante que os médicos que prescrevam canábis, seja de que forma for, que tenham uma formação adequada sobre a canábis. Tanto faz que seja um médico de família ou que seja um neuropediatra, ou até o próprio psiquiatra. Por acaso há doenças mentais, até a própria esquizofrenia, em que os doentes melhoram muito com a canábis. Isso não tem a ver com a especialidade, tem a ver com a capacidade do próprio médico para receitar. Eu sou médico de família e não tenho limitação para receitar morfina nem conheço nenhum especialista em Portugal que tenha limitação para receitar morfina, só há que conhecer a morfina, a posologia e receitar naquelas receitas especiais, mas a morfina é um medicamento com alto potencial aditivo, com muitos efeitos secundários e que se não é usada com cuidado até pode ser letal. Acho que os médicos portugueses que queiram receitar canabinóides têm que ter uma formação, mas se nós fizermos uma comparação entre a morfina e a canábis, a canábis é uma molécula muito segura, não tem uma dose letal. Não existe nenhum caso em toda a história da humanidade de uma morte por sobredosagem de canábis, portanto não estou a ver porque é que deveria ter um controlo mais restrito daquele que têm os derivados dos opiáceos. É importante que os médicos tenham uma formação sim, mas também estamos a falar de uma medicina muito segura, com poucos efeitos secundários (um perfil de segurança muito importante) e com poucas interacções medicamentosas, portanto não vai ser preciso muito tempo para os médicos terem a formação adequada para receitar canábis.

Quais serão os principais benefícios da canábis medicinal para os doentes?
A utilização desta molécula vai fazer com que os doentes deixem de utilizar muitas das outras medicações, porque a canábis é uma planta que baixa a tensão arterial, diminui a dor, melhora a qualidade do sono, diminui os níveis de glicose no sangue, portanto já estamos aqui a tratar cinco ou seis patologias com apenas uma molécula, só com uma planta, que ainda por cima não pode ser patenteada. Por isso, e logicamente, os laboratórios não têm muito interesse que uma substância deste tipo veja a luz. Digamos que nisto da proibição não há só um motivo, há muitos motivos, muitos interesses que fizeram com que a canábis fosse proibida. Não nos esqueçamos que antes de 1937 a planta era muito utilizada e as farmácias estavam cheias de medicamentos à base de canábis. A partir da proibição nos Estados Unidos, em 1937, e de uma grande mentira muito bem orquestrada é que nos chegou a informação de que a canábis é uma droga muito má, sem qualquer utilidade terapêutica, e que quem começa a fumar charros acaba a injectar heroína. Pelo menos foi isso que eu recebi da minha mãe, mas estamos a descobrir que fomos enganados, simplesmente, e que esta mentira não pode continuar, sobretudo porque os primeiros afectados por esta mentira são os doentes, que podem beneficiar de uma substância muito segura e que estão aqui à espera de que esta irracionalidade acabe. Penso que é altura de os governos definirem a sua postura na evidência científica e não motivados por potenciais benefícios económicos e por enganos morais, que é o que temos tido durante tantos anos.

É impossível que as farmacêuticas consigam fazer milhares de medicamentos baseados nos diferentes perfis de canabinóides e de terpenos das diferentes variedades de canábis. A única possibilidade é permitir o autocultivo.  

Como é que um governo que ainda nem legalizou a planta facilita a formação em canábis medicinal para os médicos?
É simples. A primeira coisa que o governo português tem que fazer é criar uma Agência de Canábis Medicinal, da mesma forma que muitos países europeus, como a Alemanha , a Itália ou a República Checa têm. Esta agência vai regular quer o produto, quer a formação dos médicos. Basta olhar para os exemplos ao redor, nos países da Europa, não é preciso ir ao Estados Unidos nem é preciso ir ao Canadá, temos isso aqui ao pé. É ver o que se está a fazer nesses países e apanhar aquilo que dê mais jeito, fazer a própria estrutura cá em Portugal.

O que é que Portugal pode aprender com a experiência de Espanha, por exemplo? O que é que está a funcionar e o que é que correu mal?
Espanha é uma situação um bocadinho esquisita, no sentido de que a parte do consumo recreativo está muito potencial. Existem os Clubes Sociais de Canábis, as Associações de Usuários de Canábis, que são mais de mil entidades que distribuem canábis pelos seus associados, mas depois a parte terapêutica acaba por não ter o apoio que precisa por parte do governo. Acho que o que Portugal poderia aprender com a Espanha é ser consciente de que permitir que uma pessoa possa transportar consigo 25 gramas de marijuana, mas é acusada de um crime se for apanhada com uma semente, não faz sentido nenhum. Porque isso obriga a ir ao mercado negro, e no mercado negro não há só canábis, há outras drogas e o ambiente não é adequado. Portanto, cortar a possibilidade de ser eu próprio a produzir aquilo que consumo é uma grande grande falha. Em Espanha o autocultivo para autoconsumo não é criminalizado. Em Portugal, enquanto isso não for mudado estamos a obrigar os doentes a ir ao mercado negro.

Quais as principais doenças que já foram estudadas cientificamente e nas quais já se comprovou que a canábis cura?Para já, gostaria de começar dizendo que a canábis não cura. De facto, há muito poucas coisas que curam. Nós médicos não curamos, nós tratamos, nós aliviamos, nós melhoramos. Mas “curar” é uma palavra muito forte, que implica que a doença vai embora e nunca mais volta. A canábis melhora e está demonstrado cientificamente que em doenças como a dor crónica (resistente aos opiáceos), doenças do foro neurológico, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, alterações do movimento como por exemplo na doença de Parkinson, é altamente efetiva, também nas náuseas e nos vómitos secundários da quimioterapia, quando há doenças oncológicas. É um bom remédio para uma pessoa que tem problemas de insónias quando já nenhum medicamento funciona. É um bom ansiolítico e um bom antidepressivo, mas atenção que também tem potencial para poder desencadear episódios de ansiedade ou surtos psicóticos, portanto nas doenças mentais a canábis tem muito potencial, mas tem que ser usada com muito cuidado.

Porque o que funciona para uns pode não funcionar para outros…
É uma faca de dois gumes. Uma pessoa que começa a consumir canábis pode sentir-se mais descontraída, mas se for um consumo abusivo pode provocar ansiedade. Quando utilizamos canábis de um ponto de vista estritamente terapêutico o que o doente quer é a melhoria dos sintomas, não é o efeito psicoativo. O doente não quer ficar com a moca, quer é poder ir trabalhar, quer poder ir buscar os seus filhos à escola, quer poder ir à reunião da empresa. Portanto, se o doente pudesse tirar a parte psicoativa da canábis, muito provavelmente tirava, não é? Mas é algo inerente, como quando se utilizam opiáceos, portanto a psicoactividade é inerente. Ultimamente tem ficado muito bem demonstrado cientificamente, a nível pré-clínico (ou seja, experimentado com animais, mas ainda não estudado em humanos), o potencial anti-tumoral e anti-cancerígeno dos canabinóides. O THC e o CBD têm a capacidade de fazer com que as células tumorais se suicidem, mas ainda não há estudos em humanos. Há sim muitas pessoas que se auto-medicam com doses altas de canabinóides e realmente os tumores diminuem ou deixam de crescer, mas enquanto não houver estudos científicos em humanos bem definidos a comunidade científica não vai aceitar este potencial.

Com Raphael Mechoulam, “pai” do Δ9-tetrahydrocannabinol (THC)

O que é que falta para isso acontecer?
O que falta para haver esses estudos é… sinceramente, é as farmacêuticas terem interesse em pagar esses estudos. Ora eu não vou pagar um estudo para demonstrar uma coisa numa substância que depois não vou poder patentear. Então depois quem é que retribui os milhares de milhões que eu gastei? Então isto é um bocadinho a “pescadinha de rabo na boca”. O que acontece é que como não há interesse por parte das farmacêuticas, que são as únicas que podem comportar o capital necessário para fazer estudos clínicos, quem é que vai pagar esses estudos? Não é o governo, as farmacêuticas também não. Portanto, sabemos que aquilo funciona nos animais, funciona nas culturas celulares, muito provavelmente vai funcionar nos humanos, mas enquanto não há estudos clínicos, como é que sabemos tão cientificamente que a canábis funciona? Então estamos aqui num stand-by. Sabemos que há uma possível ajuda muito importante para os doentes com cancro, mas não conseguimos fazer estudos clínicos simplesmente porque não há capital. E as únicas entidades que poderiam dar esse capital não têm interesse, porque é uma planta e não a podem patentear. Portanto, estamos aqui à espera que aconteça qualquer coisa.

Cultivar a própria medicina é altamente terapêutico

Tendo em conta que há pacientes que têm resultados terapêuticos mais efectivos com variedades de canábis que não são disponibilizadas pelas farmacêuticas, faz sentido salvaguardar o direito do paciente poder, de forma regulada e controlada, cultivar um número de plantas para consumo próprio?
Sim, claro, faz todo o sentido. Como já disse, nós temos na planta da canábis toda uma farmácia, temos plantas sativas puras altamente euforizantes, que são as melhores para estimular o apetite, para retirar as náuseas e os vómitos ou para diminuir os sintomas depressivos nos doentes, e temos várias índicas puras que são as melhores para as pessoas que têm muita ansiedade, que não conseguem dormir ou que estão cheias de dores. Quando um doente vai experimentando diferentes variedades de canábis para tratar os seus sintomas e que de repente encontra uma variedade que é a que melhor funciona, essa pessoa tem que ter direito a ter uma fonte contínua dessa variedade. Isto porque é impossível que as farmacêuticas consigam fazer milhares de medicamentos baseados nos diferentes perfis de canabinóides e de terpenos das diferentes variedades de canábis. Portanto, é um direito fundamental uma pessoa ter uma fonte de acesso contínua àquilo que lhe faz bem. E neste momento, a única possibilidade é permitir o autocultivo.

E como é que se regula o autocultivo?
Um numero máximo de plantas que dê uma produção máxima em gramas de canábis anual ou trimestral, controlado por auditorias governamentais, com medidas mínimas de segurança que se assegurem de que a canábis não acaba noutras vias ou no mercado negro. Isso já foi feito noutros países, existe no Canadá, nos Estados Unidos e recentemente o governo alemão autorizou o cultivo a um doente. Esse doente estava a utilizar canábis medicinal, mas a companhia de seguros não cobria esses gastos. Demonstrou-se que o doente precisava da substância, que não tinha capacidade económica para a obter nas farmácias, que a companhia de seguros não comparticipava, e portanto o governo alemão autorizou o cultivo. É uma questão de lógica, é só ver o que está a acontecer e aprender com aquilo que está a funcionar noutros países.

Todo o consumo de canábis pode ser terapêutico? Ou seja, mesmo o consumo recreativo pode ser visto como terapêutico em algumas situações?
O consumo de canábis ou é recreativo ou é terapêutico. Quando uma pessoa consome canábis ou procura melhorar os sintomas ou procura um estado de bem-estar. É claro que um estado de bem-estar é terapêutico, porque sentirmo-nos bem é bom para a nossa saúde, mas há que delimitar muito bem e não podemos pensar que como a canábis tem potencial terapêutico, então eu cada vez que consumo canábis estou a fazer bem ao meu organismo, independentemente de ter uma patologia séria ou não. Uma coisa são as pessoas que utilizam morfina, porque têm muitas dores, e outra coisa são as pessoas que consomem heroína fumada na prata. Não quer dizer que a heroína numa pessoa que tenha muitas dores não possa tirar as dores, mas o objectivo final do consumo não é o mesmo. Portanto, acho que é um erro que as pessoas que consomem canábis com fins recreativos justifiquem o seu próprio consumo como algo potencialmente terapêutico. Não! São duas coisas diferentes, mas a liberdade do indivíduo para consumir aquilo que ele quiser, desde que esse consumo não faça mal a terceiros, é uma coisa inerente, e acho que é nisso que as pessoas que consomem canábis com fins recreativos têm que se basear, no direito à própria liberdade.

Há doenças mentais, até a própria esquizofrenia, em que os doentes melhoram muito com a canábis

Porque é as listas de patologias onde a legalização medicinal avançou variam consoante a lei? Acha que do ponto de vista médico todas as patologias estão a ser contempladas nos decretos-lei ou há ainda muitas outras que podiam beneficiar do tratamento com canábis?
Acho que isso tem a ver com o facto de o potencial terapêutico da canábis se basear na existência do sistema endocanabinóide, que tem múltiplas funções no organismo, por isso há muitos sintomas que podem ser aliviados. A escolha de umas patologias ou outras suponho que tenha a ver com a abertura e com a própria utilização da população. Quer dizer, se há um país onde a canábis praticamente não é utilizada para controlar as epilepsias, se calhar não faz muito sentido que seja uma das primeiras, não é?

Com o Professor Ethan Russo, neurologista e investigador na área da psicofarmacologia, da GW Pharmaceuticals

De que forma é que os pacientes devem abordar este tema com o seu médico de família?
Acho que deve de ser abordado de uma forma aberta, no sentido de os doentes primeiro, eles próprios reportarem informação aos seus médicos que dê força e que justifique o pedido que estão a fazer. Se o médico tiver a sensação que o paciente quer fumar umas ganzas, logicamente vai-se fechar. Mas se o médico vê que o argumento do doente está bem estruturado e que o pedido tem lógica, não estou a ver porque é que não irá pelo menos estudar a possibilidade e acabar por se informar sobre o que o doente está a pedir. Nós em Espanha temos um problema que se chama a ‘picaresca’ ok? São aquelas pessoas que utilizam canábis com fins não medicinais e que vão sempre procurar no uso terapêutico uma justificação para consumirem, para transportarem ou para cultivarem. Isso existe em todos os países e sempre vai existir: o consumidor lúdico que quer um papel ou uma justificação médica para consumir canábis. E nós não temos ideia do dano que isto faz à normalização do uso terapêutico da canábis. Não podemos permitir que a vontade de justificar o consumo recreativo acabe por estragar a normalização do uso terapêutico da canábis, que beneficia as pessoas que realmente precisam da canábis.

Sabendo desse problema, que é ir à boleia da legalização terapêutica, e sabendo que se as alternativas na farmácia são limitadas, e sabendo também que qualquer médico de qualquer especialidade poderá receitar canábis, qual é a melhor forma para os médicos se informarem e receitarem. Ou seja, como é que decidem a melhor forma de administração, a melhor posologia, se será melhor em flor, em óleo ou outro extracto…
Ao dia de hoje, a fonte de informação mais fidedigna e com a maior base de dados é a página da Internacional Association for Cannabinoid Medicines, a IACM, que tem imensos artigos que falam não só sobre a parte pré-clínica ou sobre o uso de medicamentos, mas também de estudos com flor, quais as posologias que têm sido utilizadas, quais as vias de administração mais efectivas, estudos que têm sido feitos em Israel, no Canadá… Tudo isto está na página web da IACM, portanto é só pesquisar aí a informação fidedigna para resolver todas as dúvidas que um médico possa ter.

Uma pessoa que fuma tabaco pode fumar 40 a 60 cigarros por dia, mas não conheço quem consiga aguentar fumar 60 charros por dia

E qual é que será a melhor abordagem para falar com uma pessoa que ainda tem o preconceito de a canábis ser uma droga. Imagina que vou ter com uma senhora que até tem um cancro, que passa muito mal com a quimioterapia, e eu sei que a canábis a pode ajudar mas ela não sabe e vive sob esse preconceito. Qual a melhor maneira de abordar o assunto com estas pessoas?
Sabes que quando uma pessoa não quer utilizar um tratamento, mesmo que nós consigamos administrá-lo, esse tratamento não vai ser muito efectivo. Primeiro é desmistificar a canábis. Acho que a melhor forma de abordar é falar do uso da canábis como medicina no período anterior à sua proibição, na época em que era usada livremente como medicamento e saltar aos dias de hoje, onde há imensos países que já autorizam o seu uso terapêutico, porque é complicado mudar só numa conversa algo que têm sido aprendido ao longo dos anos, aquela lenga-lenga da adição, da escalada das drogas, de problemas mentais, de ser ilegal, e ninguém quer falar. Se o governo de repente autorizar o uso terapêutico da canábis e todas as farmácias tiverem canábis e ela deixar de ser ilegal, muitas das mentalidades que estão completamente contra, dirão: ‘ah pronto, agora já não há nenhum problema legal”. Os próprios doentes que estão convencidos do uso terapêutico têm medo, ‘se eu for apanhado vou preso’.

Portanto, o maior desafio é mudar mentalidades…
Há que tentar desmistificar também o facto de que não é pelo facto de uma substância ser ilegal que é má, da mesma forma que não é pelo facto de uma substância ser legal que é boa. Ninguém pensa em proibir o tabaco ou o álcool, seria um disparate, mas o álcool é a droga que mais mortes causa, que mais problemas dá a nível pessoal, familiar, social, económico e mesmo em termos de custos de tratamento das pessoas que sofrem de alcoolismo. O tabaco e o álcool são as duas drogas mais perigosas que há, e são legais, mas isso é porque há interesses económicos por trás. Então, ou aplicamos a mesma lei para todas – e não acho lógico proibir todas as substâncias –, ou então temos um bocadinho de coerência e acabamos por normalizar. Mas atenção que eu não sou a favor da legalização da canábis. Eu abono mais por uma normalização daquilo que já existe, mais do que a legalização. Porque a canábis também não é um produto para estar aí ao alcance de todas as pessoas, tem efeitos secundários potenciais que devem ser avaliados e é importante que haja informação disponível, porque só quando temos informação é que somos livres para fazer boas escolhas.

Estando a trabalhar no Serviço Nacional de Saúde e tendo contacto com os colegas portugueses, parece-lhe haver abertura da parte dos médicos para recomendarem este tipo de terapêuticas?
Quando existe uma massa crítica de pessoas que utilizam canábis, que falam de canábis nas notícias, que falam do uso terapêutico da canábis, chega um momento em que a abertura mental para aprender sobre o assunto se contagia. E então chegará a altura em que há uma única hipótese, para os médicos não ficarem desfasados neste sentido, que é aceitar que a canábis tem potencial terapêutico e estudar o assunto. Porque mesmo que eu não queira receitar canábis vai chegar a altura em que um doente vai dizer que outro colega lhe receitou canábis e o que é que ele vai dizer? “Olhe, não é medicinal, não quero saber da canábis, mesmo que já existam medicamentos à base de canábis na farmácia”. Isso seria como eu dizer “Olhe, não quero saber dos anti- hipertensores, você está medicado com um anti-hipertensor pelo seu médico de família, mas eu não quero saber de nada disso, portanto vou lhe receitar outra coisa mesmo que faça interação”. Os médicos, uma vez que o uso terapêutico da canábis já seja uma realidade vão ter que estudar sobre isso, não vão ter outra hipótese.

Do ponto de vista médico, qual é o conselho que tem a dar às pessoas que fumam canábis misturando-a com tabaco?
A maior parte da canábis consumida na Europa é, desde há muitos séculos, o haxixe que vem de Marrocos e como não é fácil fumar aquela substância pura, então mistura-se com tabaco. Isto tem um efeito nocivo importante, porque o THC, o princípio activo da canábis, é broncodilatador e faz que os bronquíolos aumentem a sua capacidade para captar o ar, mas também aumenta a sua capacidade para captar a nicotina e as substâncias nocivas que vêm no tabaco. E portanto, se compararmos um cigarro de tabaco com um charro, o charro é pior porque temos o THC que aumenta o tamanho dos bronquíolos e portanto faz com que seja absorvida maior quantidade de nicotina. Também é verdade que uma pessoa que fuma tabaco pode fumar 40 a 60 cigarros por dia, mas já uma pessoa que fuma charros, não conheço quem consiga aguentar fumar 60 charros por dia, eu gostaria mas não conheço ninguém. O ideal é não fumar, o ideal é vaporizar, e hoje em dia já existem vaporizadores – que são uns aparelhos com uma resistência que aquece a matéria vegetal até uma temperatura em que os canabinóides ficam voláteis e nós os conseguimos absorver. E assim temos o mesmo efeito que fumar, mas sem fumo, portanto não temos irritações pulmonares, não há risco de bronquite, é muito mais saudável e conseguimos utilizar erva no seu estado puro, sem ter que misturar com tabaco. Portanto, se consome canábis por via inalatória há que tentar reduzir o risco máximo, e reduzir o risco máximo passa por tentar eliminar a combustão, eliminar o fumo que vai sempre ser irritativo para os pulmões. E as pessoas que fumam canábis durante muitos anos não têm cancro, mas acabam por ter bronquites, pois o fumo irrita os pulmões. Se acabarmos com o fumo melhoramos a nossa saúde.

E só para terminar, é possível morrer com uma overdose de canábis?
Se nós falarmos de mortes por overdose de canábis, isso não existe. Não existe em toda a história da humanidade uma morte por overdose de canábis que tenha sido cientificamente demonstrada. Mas existem sobredosagens de canábis e uma sobredosagem de canábis é uma experiência muito desagradável, ok? Muito, muito desagradável! Uma pessoa que toma uma dose excessiva de canábis pensa que vai morrer ou então pensa que vai ficar maluca e já não sabe se é melhor ficar maluca ou morrer. Portanto, a experiência é muito desagradável, mas não passa disso, de um grande susto. Depois, quando o efeito passa, aquilo passou. Em pessoas com problemas cardíacos uma sobredosagem pode levar a uma descompensação cardíaca, por isso há que ter cuidado. Em crianças muito pequeninas, quando não se justifica bem o uso terapêutico de canábis a sua utilização pode modificar o desenvolvimento do sistema nervoso central, porque o sistema endocanabinóide é que regula o crescimento, portanto há que fazer um balanço entre benefício/risco antes de utilizar canábis com fins medicinais. Mas uma sobredosagem de canábis… eu nunca vi ninguém a morrer por causa de canábis, mas já vi alguém quase a morrer por não conseguir canábis.
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(Imagem de destaque: Ricardo Rocha)

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