Auto-Cultivo: peça chave nas terapias com canábis

Artigo de Opinião. Texto e Fotografia de Tommy L. Gomez *

Ao longo dos últimos anos tenho-me dedicado a dar a cheirar flores de canábis a pessoas que nunca a consumiram, desconhecendo-a por completo no que ao contacto presencial com a planta diz respeito. Sem as incitar de forma alguma ao consumo, peço-lhes apenas que me transmitam com total imparcialidade o que pensam sobre os aromas presentes nas ditas flores.

Esfrego os cálices por forma a que se quebrem alguns tricomas e se libertem os terpenos. Em mais de 90% dos casos existe unanimidade: os aromas, além de muito curiosos e únicos, são absolutamente agradáveis na sua complexidade, ao ponto de dar vontade de continuar a presentear o olfacto com tal maravilha da natureza.

Black Cream Auto — Foto da série “Cannabis Sativa L.” — Macro-fotografia de Tommy L. Gomez

Aromas doces, agridoces, apimentados, a gasóleo, a dissolvente, a madeira, a terra molhada, a incenso, a especiarias, a chocolate, menta, café, baunilha, cenoura, a fruta madura como melão, laranja, limão, morango, frutos do bosque, manga, pêssego, etc. Enfim, uma panóplia interminável de aromas e sabores que, segundo cada variedade, podem estar mais ou menos presentes no bouquet de terpenos de cada planta. Umas genéticas são mais frutadas, outras mais amadeiradas, outras mais doces, tipo algodão doce, outras até de aroma mais pungente com tonalidades aromáticas que vulgarmente consideramos desagradáveis, tais como terra húmida, gasóleo ou dissolvente, mas que, por serem tão curiosos e complexos, nos conseguem estimular os sentidos ao ponto de, em última análise, os podermos considerar agradáveis.

A planta de canábis evoluiu com o ser humano. Nas zonas do planeta em que ao longo de grande parte da história da humanidade a canábis sempre cresceu selvagem, em função da alta resistência por via da adaptação das variedades autóctones às contrariedades ambientais de cada região, o ser humano e a planta de canábis sempre interagiram, numa relação de perfeita simbiose. Em todos os casos e tal como fizemos com tantas outras espécies do reino vegetal, sempre preferimos plantar sementes daquelas plantas (variedades ou fenótipos dentro de uma mesma variedade) que mais nos agradavam ao nível organoléptico. Esta selecção “natural”, pelas mãos dos nossos antepassados, explica em grande medida a reacção tão positiva do ser humano “não-consumidor” ao cheiro das flores de canábis. Afinal, fomos nós que as seleccionámos para que desprendam estes aromas, descartando sementes das plantas de aromas menos agradáveis e germinando aquelas provenientes de plantas com aromas mais ao gosto do olfato humano. Posteriormente, cruzando-as entre si. Não causa estranheza que os aromas e sabores dos híbridos modernos sejam do nosso agrado. Uma selecção tão natural quanto a naturalidade da acção do nosso antepassado neste sentido. Definitivamente, uma selecção natural em todo o seu esplendor.

Sementes de canábis. Foto de Tommy L. Gomez

A nota introdutória do texto, aparentando não possuir qualquer relação com a temática identificada no título deste artigo de opinião, serve para clarificar um facto que qualquer amante ou estudioso da planta Cannabis Sativa L. deveria conhecer: a planta de canábis é única mas não existem duas plantas iguais. Tal como o ser humano. Não encontramos dois iguais, quer estejamos a falar de pessoas, quer de plantas. Se germinarmos 100 sementes de uma determinada genética, provenientes, portanto, dos mesmos parentais, apesar de se poder considerar que todas possuem a mesma carga genética, cada planta vai apresentar um fenótipo diferente. Por outro lado, as combinações genéticas possíveis são infinitas, precisamente como sucede com o ser humano, em que qualquer “cruzamento” entre dois seres diferentes dá origem a um fenótipo único.

Por estas alturas da segunda década do terceiro milénio, podemos encontrar seguramente mais de 10.000 genéticas de canábis das quais existe registo, e ainda mais certamente acima de 10.000.000 de genéticas (ou variações fenotípicas dentro de uma mesma genética) das quais não podemos encontrar registo, mas que sabemos sem qualquer margem para dúvida que existem. Aliás, os números pecarão certamente por escassos. Além disso, se cada planta assume o seu próprio fenótipo, por cada planta, temos um perfil cannabinoide único, irrepetível e nunca antes visto. Um bouquet de aromas e sabores singular, uma produção de tricomas única, uma beleza na estrutura da flor sem igual, e por aí em diante.

“A canábis é única, não existem duas plantas iguais. Tal como o ser humano, não encontramos dois iguais”


Um consumidor de canábis, quer assuma uma relação com a planta a nível medicinal, terapêutico ou lúdico, tende a enveredar no desfrute de uma trajectória em que se envolve com a planta de canábis numa espécie de romance cujo objectivo é encontrar a sua cara metade canábica. Não seria despropositado dizer-se que 99% dos animais humanos se sentem impulsionados e motivados para a busca de um semelhante que seja do seu agrado e que possua uma visão comum, ou tão comum quanto possível, por forma a que, com essa pessoa, possa estabelecer uma relação de partilha, de amizade, amor, de minimamente aceitável perfeita união (salvo a contradição).

Se qualquer um de nós se visse na posição de ter que encontrar parceiro numa farmácia e nos fossem dadas apenas duas opções, a grande maioria de nós acabaría por se divorciar no curto prazo. Aliás, já na realidade de livre arbítrio que conhecemos, a maioria se acaba por “divorciar” praticamente no imediato, pelo que tendo que escolher entre apenas duas opções, provavelmente mais de 90% acabaria por ficar na solidão ou, em alternativa, teria que procurar alguém fora da farmácia.

Tricomas de Red Poison Auto — Foto da série “Cannabis Sativa L.” — Macro-fotografia de Tommy L. Gomez

É assim que tem acontecido nos países que legalizaram a canábis medicinal mas limitam a sua obtenção por parte dos doentes às farmácias. Um consumidor de canábis que já provou centenas de variedades, em todos os casos, sem excepção e por força da lógica, tem as suas 3 variedades, 5, talvez 10, favoritas, que lhe proporcionam o efeito pretendido. E muito dificilmente uma delas estará à venda na farmácia, que apenas tem 2 variedades em stock. As probabilidades seriam em ordem do tipo de 1 em 1000. Por este motivo, e não apenas por carolice, tantos outros países e Estados dos USA optam por permitir ao doente a aquisição da canábis em locais especialmente concebidos para o efeito: os dispensários ou clubes sociais de canábis.

Pessoalmente, é com muito orgulho que este ano completo 20 anos de consumos canábicos. Contínuos e com poucas intermitencias, felizmente e para bem da minha saúde, conforto, desenvolvimento pessoal e bem estar geral. Entendo (porque constato) que “a canábis não é para todos”. Mas sei que “é para a maioria”, no sentido em que estou perfeitamente conhecedor de que a maioria de nós (adultos que decidem consumir) tem a capacidade de recolher os mais vastos benefícios de um consumo canábico responsável e ponderado, sem que qualquer efeito negativo se chegue contrapor na mesma proporção ou perto disso. Destes 20 anos de consumo, 6 foram na base dos derivados de canábis de baixa qualidade e quase sempre adulterados, que tão daninhos são para a saúde e que abundam no mercado negro. Frutos envenenados da proibição. Mas, através da descoberta do auto-cultivo, pude desde 2004 enveredar pelo seguro caminho da odisseia canábica em todo o seu esplendor, descobrindo primeiro dezenas, depois centenas, de diferentes variedades, diversos aromas, sabores e efeitos. Fenótipos preservados no tempo através de clones elite, vulgo plantas mãe mantidas em vegetativo permanente (em teoria a eternidade é o limite) através de fotoperiodos de 18 ou mais horas de luz diária.

“Se tivessemos de encontrar parceiro numa farmácia e nos fossem dadas apenas duas opções, a grande maioria de nós acabaria por se divorciar no curto prazo”.

Ao longo de todos estes anos, depois de experimentar centenas de variedades que cultivei, tantas outras centenas de castas provenientes de cultivos de amigos e talvez milhares de outras genéticas de aquisição em coffee shops holandeses, dispensários canadianos ou clubes sociais espanhóis, sinto que percorri um trajecto fantástico de descoberta e investigação sobre aquilo que é a canábis e sobre o que ela é em mim. Variedades há que, se me dissessem que só podia ir para a cama com aquela até ao final da vida, deixaria de ser consumidor já hoje, de tal forma desagradáveis são as sensações que me aprontam. Deixam-me totalmente desconfortável. Algumas ansioso. Outras triste. Outras sem vontade de fazer nada. Outras não me deixam dormir, enervam-me, dão-me pesadelos. Se a canábis fossem elas, deixava-a no momento.

Outras variedades há que, pelo contrário, têm o poder de encaixar como chaves feitas à medida do buraco da fechadura dos meus receptores endocannabinoides. Conforto, motivação, bom humor, criatividade, euforia gentil e controlável, concentração, e sensações tantas que faltaria inventar palavras para as poder expressar. Mas para estar numa de inventar palavras, faltar-me-ia uma determinada variedade que de momento não tenho no meu stock, pelo que terá que ficar para uma futura oportunidade. Tenho, por exemplo, uma variedade que me motiva para as tarefas mais entediantes a nível laboral. Adoro a minha profissão e sou um apaixonado pela temática em que a mesma se enquadra (não fosse ela esta) mas, como em todas as profissões, existem tarefas que se pudesse passar sem as executar, fá-lo-ia sem pensar duas vezes.

“Indigo Berry Kush” — Foto da série “Cannabis Sativa L.” — Macro-fotografia de Tommy L. Gomez

Quando se me acumula trabalho desse género, vaporizo ou como bolachas canábicas (feitas com manteiga canábica) de uma determinada variedade que tenho seleccionada. Quando me apetece ir passear à rua ou ao campo, utilizo outra variedade diferente. Quando é para ir às compras, ou para ir sair à noite, ou assistir a um concerto, tenho outra. Para abrir o apetite, como por exemplo para o jantar de natal da empresa, como uma bolachinha canábica de uma outra variedade em específico, duas horas antes, e o jantar torna-se numa sinfonia para as papilas gustativas. Para uma noite confortável e um sono perfeito, tenho outra variedade. E por aí em diante, virtualmente até ao infinito.

Reformulando, estas variedades, seleccionadas por mim ao longo dos anos, encaixam nos meus receptores endocannabinoides como uma chave encaixa na fechadura para a qual foi desenhada por medida. Com estas mesmas variedades, tomadas por outra pessoa, a tendência será para que encaixem de forma diferente e os efeitos percebidos não sejam exactamente os mesmos. Poderão ser absolutamente desagradáveis e contraindicadas. Cada pessoa é única. Tão única quanto cada fenótipo de canábis.

Semente germinada — Foto da série “Cannabis Sativa L.” — Macro-fotografia de Tommy L. Gomez

Nem podemos falar em variedades. Pois se eu germinar 10 sementes de uma única variedade, cada uma das 10 plantas terá variações fenotípicas que a diferenciam das demais. Ao ponto de não ser possível garantir que o cultivo de 10 sementes da variedade que me motiva para actividades entediantes venha a produzir flores com um perfil cannabinoide minimamente semelhante ao daquele fenótipo que efectivamente me permite esse efeito e que guardo em formato de clone (ou planta mãe). Só o clone (ou planta mãe) e a produção através de cultivos com clones feitos a partir dessa planta mãe, em detrimento do cultivo a partir de semente, pode assegurar a virtualmente ilimitada reprodução de um perfil genético e, assim, permitir a um doente a ininterrupta produção de flores de canábis com o perfil cannabinoide adequado a si, à sua patologia e à forma tão particular como a específica patologia interfere com a sua saúde e bem-estar.

Estamos, portanto, perante infinitas variações numa única planta de extraordinário potencial terapêutico, em que cada tipo de efeito é mais ou menos adequado a um propósito, dependendo da pessoa que o experimenta. E se no âmbito lúdico ou recreativo é assim, no âmbito medicinal ou terapêutico exponencia-se e reveste-se de relevância o impacto das diferenças entre variedades/fenótipos. O que para uns é uma terapia, para outros pode até chegar a ser contraindicado.

Big Devil #2 Auto — Foto da série “Cannabis Sativa L.” — Macro-fotografia de Tommy L. Gomez

Limitar a venda de canábis medicinal às farmácias é como decidir apenas vender 2 medicamentos na farmácia e colocar os doentes todos no mesmo saco. É como receitar um medicamento ao acaso. Como se numa consulta com o nosso médico de família ele enfiasse a mão num saco cheio de bolas, cada uma com o nome de um medicamento, e nos tocasse a prescrição daquele que ao azar saísse. É como fazer aromaterapia apenas com 2 aromas ou cromoterapia apenas com 2 cores. Ou ter apenas 2 tamanhos e medidas de próteses para todos os amputados. Faz tanto sentido como os casamentos por conveniência e os resultados tendem a ser na mesma medida desastrosos.

É inegável que a criação de locais destinados à venda de flores de canábis para fins medicinais ou terapêuticos, permitiria ao doente escolher de entre muitas dezenas de variedades, aquela ou aquelas que mais benefícios lhe proporcionassem após experimentar os seus efeitos. Já seria um bom ponto de partida. Porém, para que a panóplia se ampliasse da ordem das dezenas para a ordem dos milhares (em teoria, “ao infinito”), permitindo um acesso total do doente ao seu medicamento ou terapia, a resposta é apenas uma: auto-cultivo.
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Todas as fotos: Tommy L. Gomez // Cannapress

* Sobre Tommy L. Gomez:
Nasceu no interior do Alentejo em 1980 e desde 2004 que se auto-cultiva.
É fotógrafo canábico no banco de sementes espanhol Sweet Seeds®.
Administrou vários fóruns sobre canábis, entre os quais o Horta da Couve, CannabisCafe e o conhecido Tricomaria, desde 2013. Trabalha desde 2010 como Community Manager. Venceu o 1º Concurso de Seguimentos de cultivo, promovido pelo banco da Sweet Seeds. Já escreveu artigos para praticamente todas as revistas canábicas. Escreve sempre sob a influência de canabinóides.

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