Brendan Kennedy: “Trouxemos 50 genéticas de canábis para Portugal”

Brendan Kennedy era muito céptico em relação ao potencial terapêutico da canábis, mas, em 2010, uma criança com epilepsia mudaria radicalmente a sua opinião. De tal forma que viajou por todo o mundo para conhecer pacientes e acabou por criar, através da sua empresa baseada em Seattle “Privateer Holdings“, a multinacional canadiana Tilray, que obteve este ano licença do Infarmed para cultivar canábis medicinal em Portugal.

Um terreno de quatro hectares, em Cantanhede, vai albergar mais de 100 mil plantas no futuro breve, mas para já estão apenas a crescer, em interior, as 50 plantas-mãe, de genéticas diferentes, que a Tilray trouxe do Canadá. A extracção, processamento e investigação vão ser feitos também em Portugal, em colaboração com Parque Tecnológico de Cantanhede, o BioCant.

Falámos com Brendan Kennedy durante a Web Summit 2017, onde a Tilray explicou o seu investimento de 20 milhões de euros no nosso país e garantiu a criação de cerca de 100 empregos directos até 2020, em especial na área agrícola e na investigação científica.

Como é que chegou ao mercado da canábis e o que o fez fundar a Tilray?
Há sete anos, em maio de 2010, estive numa palestra dada por uma empresa tecnológica no sector da canábis medicinal na Califórnia e fiquei intrigado. Comecei a viajar pelo mundo a pesquisar a indústria da canábis medicinal e a falar com pacientes, cultivadores, processadores e proprietários de dispensários, médicos, farmacêuticos, advogados, activistas e actores políticos, para compreender a indústria. Fui até às zonas montanhosas do norte da Califórnia e do sul do Oregon, a celeiros na Colúmbia Britânica, campos no Colorado, às Blue Mountains e a Orange Hill, na Jamaica, a um kibbutz perto da Faixa de Gaza e uma quinta nas montanhas do norte de Israel, perto do mar da Galileia, fui a estufas em Espanha, a coffeeshops em Amesterdão, onde quer que houvesse pessoas na indústria da canábis, e acabei por visitar lugares onde as pessoas não costumam ir, falei com pessoas com quem as pessoas não costumam falar e fiquei fascinado por esta indústria, fiquei fascinado pela canábis medicinal. E portanto, foi assim que comecei.

Brendan Kennedy voltou à Web Summit, em Novembro de 2017, para falar sobre os investimentos da Tilray em canábis medicinal Foto: Laura Ramos

Mas conhecia alguém que utilizasse canábis medicinal?
Naquela época, não. Portanto, a minha primeira abordagem foi muito céptica, mas após falar com vários pacientes e com os pais de uma criança com epilepsia, perdi todo o meu cepticismo. Isso foi em 2010. Perdi todo o meu cepticismo e tornei-me num defensor acérrimo da canábis medicinal. No verão de 2013 fomos contactados pelo governo canadiano para investir em candidatos a licenciamento federal para cultivo de canábis no Canadá. Começámos a procurar a empresa certa e acabámos por ser nós próprios a fundar a Tilray. Criámos a Tilray, fizemos um investimento avultado e recebemos uma das primeiras licenças canadianas, em 2014.

No vosso site pode ler-se: “Aspiramos a construir a marca de canábis medicinal mais confiável e admirada, para atender às necessidades de pacientes e pesquisadores.” Pode explicar de que forma Portugal é um passo importante neste processo de alcançar a liderança?
Há cerca de dois anos, com quatro anos de actividade no Canadá e produtos enviados para cerca de 25 mil pacientes, tornámo-nos na primeira empresa a exportar legalmente canábis medicinal para a América do Norte, algo que nunca tinha sido feito, e a primeira empresa a importar canábis medicinal para a União Europeia (UE). Desde então, vendemos produtos para sete países e quatro continentes. Há aproximadamente dois anos tomámos a decisão de encontrar um novo lugar no mundo onde pudéssemos obter uma licença nacional, concedida por um governo. E… Céus, viajei… Viajei muito! Corri o mundo em busca de uma licença e quando vim para Portugal e encetámos conversações pareceu existir uma abertura e disponibilidade para conceder a licença a uma empresa que estava disposta a investir um capital considerável no estabelecimento de uma operação de cultivo e processamento. Portugal tem o clima ideal para o cultivo de canábis, tem uma excelente mão-de-obra, tem um corpo técnico-científico extremamente profissional no domínio das ciências da vida para recrutar e gostámos muito do parque tecnológico Biocant. Conseguimos estabelecer uma boa relação com os vários Ministérios do governo, tanto a nível nacional como a nível local, para selecionar o lugar certo.

“Na UE, vemos que se sucedem os países que legalizam a canábis medicinal e isso vai continuar nos próximos anos. A nossa operação aqui será exportar os nossos produtos e esperamos que qualquer dia estejam disponíveis em Portugal”

Qual foi a primeira organização ou a primeira pessoa que abordou em Portugal para propor este investimento?
Falámos com a… AICEP…

AICEP?
Vou pronunciar tudo mal. (risos)

Disse bem.
Falámos com os Ministérios da Agricultura, da Saúde e da Economia. Falámos também com o SICAD.

Com o Dr. João Goulão?
Sim. Para compreender a história relativa à descriminalização. Em muitas dessas reuniões tentávamos aprender a envolver pessoas. Tal como lhe disse há pouco, quando vínhamos para aqui, quando cheguei a Portugal procurei grupos de activistas e de pacientes em Portugal e na verdade não encontrei grupo algum. E normalmente esse é o primeiro passo quando avaliamos um país: reunir com grupos de pacientes. Tal como disse, não conseguimos encontrar nenhum grupo organizado em Portugal há dois anos atrás.

Agora já pode encontrar a Cannativa.
Sim, agora já tenho um contacto.

Não lhe parece irónico que Portugal esteja a investir ou a fazer investimentos em canábis medicinal, embora esta continue a ser ilegal em Portugal?
De certa forma torna-se menos complicado para os dirigentes eleitos, porque se trata essencialmente de investimento, criação de emprego e investigação científica. E na UE, vemos que se sucedem os países que legalizam a canábis medicinal e pensamos que isso vai continuar nos próximos anos. A nossa operação aqui será exportar os nossos produtos para todo o mundo e esperamos que qualquer dia alguns estejam disponíveis cá, em Portugal.

Grow room da Tilray no Canadá. Foto: Tilray.com

Também me disse que a razão que o levou a vir para cá foi a também existência de bons recursos humanos, investigadores e…
Sim.

Mas quase ninguém faz investigação sobre canábis medicinal em Portugal.
É verdade, mas há uma comunidade de investigadores robusta. Esses cientistas estão a investigar muitas outras coisas, há um que está a investigar o uso de cafeína e de canábis na doença de Alzheimer em animais. Fomos contactados por investigadores de todo o mundo, provavelmente recebemos dois pedidos por semana de fórmulas específicas para ensaios clínicos. Portanto, essa é uma das coisas nas quais vamos trabalhar: encontrar um investigador em Portugal que tenha interesse em estudar a utilização de canábis para dor, cancro, doença de Alzheimer. Como disse na minha conferência [durante a WebSummit], estamos a fornecer produtos para ensaios clínicos sobre a náusea induzida pela quimioterapia, ensaio clínico sobre transtorno de stress pós-traumático, ensaio clínico na doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) e um ensaio clínico sobre epilepsia infantil. Depois, há muitos outros… não são ensaios clínicos, mas sim estudos em todo o mundo. Penso que vamos encontrar um grupo em Portugal que esteja interessado em ligar-se à investigação sobre fármacos baseados em canábis medicinal.


“[Em Cantanhede] teremos 500 plantas em interior. Tudo o resto estará no exterior, cerca de dois hectares de estufas de vidro”

Na verdade, temos alguns investigadores que já fizeram estudos com canábis medicinal, na Universidade de Coimbra. Como encara a colaboração com as universidades e o que vai fazer a Tilray nesse domínio em Portugal?
Já temos uma relação com a… Não é a Universidade de Coimbra… embora estejamos a negociar com eles, na verdade é uma escola mais pequena. É uma escola agrícola. Portanto, estamos a contratar colaboradores agrícolas. Penso que fica perto de Coimbra. Um dos nossos primeiros colaboradores veio de lá e vamos contratar pelo menos uma dúzia de pessoas dessa universidade.

Inicialmente, vi que estavam a contratar aqui, em Portugal, e que iam criar cerca de 100 empregos, mas na sua apresentação aqui na Web Summit disse 50.
Serão 50 no final do próximo ano.

E serão 100 só em 2020, é isso?
Em 2019, penso. Dependerá da rapidez do projecto de construção. Mas poderá ser em 2020, em três anos.

Foi fácil negociar com o governo Português?
Foi. Mostraram-se muito abertos, muito disponíveis e profissionais, mas foi um processo demorado.

A sério?
Sim, foi um processo difícil. Neste sector, tudo é difícil, mais difícil do que em qualquer outro sector. Há muitos estereótipos negativos relacionados com a canábis e a canábis medicinal. Portanto, tivemos de convencer… Temos sempre de convencer pessoas, quer se trate de investidores, legisladores, entidades reguladoras, dirigentes eleitos, embaixadores, de que este é o momento certo para apostar neste sector.

Com João Moura, Presidente do Biocant – Parque Tecnológico de Cantanhede, a apresentar o investimento da Tilray em Portugal, durante a Web Summit 2017 Foto: Laura Ramos

E Cantanhede é uma povoação muito pequena.
Pois é.

Como é que as pessoas de lá estão a reagir?
O Presidente da Câmara não podia ter sido mais favorável. Ele é muito influente e deu-nos muito apoio durante todo o processo. Ele é agora também o presidente do Biocant e foi fantástico.

O sucesso da Tilray em Portugal depende da legalização na Europa de um modo geral? Não importa que em Portugal continue a ser ilegal?
Numa perspectiva de negócio, não tem importância. Na minha visão pessoal, a questão é diferente. Mas numa perspectiva de negócio, a Alemanha, por exemplo, que tem 88 milhões de pessoas, é o segundo maior mercado farmacêutico do mundo e qualquer médico pode passar receita a qualquer paciente para qualquer patologia com cobertura da companhia de seguros. Esses mercados são extremamente importantes para nós. Portanto, o nosso êxito aqui baseia-se em mudanças contínuas nas políticas, na UE e em todo o mundo. Actualmente enviamos produtos para a Austrália, Nova Zelândia, Chile, Argentina e também para países da UE. Potencialmente, exportaremos a partir de Portugal para países fora da Europa.

Plantação da Tilray em Nanaimo, no Estado de British Columbia. Foto de Dirk Heydemann/Tilray

Qual é a sua perspectiva quanto a Portugal? Acha que Portugal vai legalizar nos próximos anos?
De certa forma, o facto de João Goulão e o governo terem, em 2001, descriminalizado as drogas, fez com que Portugal tenha uma experiência tremenda e seja um exemplo para outros países em todo o mundo. Há um grande volume de investigação e dados dos últimos 17 anos, portanto, numa perspectiva de dados e investigação, é útil que Portugal tenha permanecido neste estado durante 17 anos. Mas penso que os grupos de pacientes e activistas em todo o mundo estão a levar a cabo esta mudança política e nós apoiamos isso. É provável que as políticas mudem a nível da UE, no que à canábis medicinal diz respeito nos próximos – está a acontecer muito rapidamente – dois ou três anos.

Acha que também acontecerá em Portugal?
Dentro de cinco anos, não sei ao certo qual será o país da Europa que não terá canábis medicinal legal.

Se um produto da Tilray fosse utilizado em Portugal ao abrigo das regulamentações actuais, teria de ser para um ensaio clínico.

E porque não já no próximo ano?
Esta experiência que está decorrer na Alemanha mudou tão rapidamente… Estive na Alemanha pela primeira vez há dois anos, onde me encontrei com dirigentes eleitos, entidades reguladoras e grupos de activistas. Corria o rumor de que se aproximava uma mudança em termos de políticas e um ano depois era lei. Portanto, esse é o ritmo da mudança na Alemanha e temos assistido a isso em outros lugares. Tal como disse, 41 milhões de pessoas na Polónia terão acesso a canábis medicinal legal, com base no que aconteceu nas últimas duas semanas.

Disse ao canal canadiano CBC que Portugal era o local ideal para produzir e exportar para a Alemanha e para o mercado europeu. Será tudo para exportação ou também vão vender parte da produção em Portugal?
Actualmente não temos possibilidade de vender um produto em Portugal. Se um produto da Tilray fosse utilizado em Portugal ao abrigo das regulamentações actuais, teria de ser para um ensaio clínico.

Laboratório de extracção Foto: HA Photography – Tilray.com

E quanto à extracção e processamento?
Será tudo feito aqui.

Vai fazê-lo em Portugal?
Tudo em Portugal, até ao produto farmacêutico finalizado.

Então também vai implantar toda uma unidade de extracção e investigação?
Sim. Quero deixar claro que ainda não temos essa licença, mas pretendemos obtê-la. Enviámos a requisição, mas ainda não a temos. Actualmente, temos a licença de cultivo e temos plantas. Hoje anunciámos que temos plantas aqui, em Portugal. Já as temos há várias semanas.

Quando vai iniciar a plantação?
Já iniciámos! No património genético que temos, as plantas estão muito pequenas, com menos de 10 cm de comprimento, e são necessários cinco meses para cultivar todo o património genético e as plantas atingirem entre 1 a 2 metros de altura. Entretanto, estamos a construir as nossas instalações, o edifício, as instalações de processamento, uma estufa, segurança… tudo o que é necessário fazer. Temos plantas muito pequenas a crescer nos nossos laboratórios no Biocant.

Quantas plantas vão ter até final deste ano?
Mais de 100 mil.

“Neste sector, tudo é difícil. Temos sempre de convencer pessoas de que este é o momento certo para apostar neste sector”

Tudo para exportação?
Sim, será tudo essencialmente para exportar, principalmente para países da UE, como a Alemanha, Croácia, Chipre, República Checa e ainda alguns países que estão na iminência de legalizar a canábis medicinal, como a Irlanda e a Itália. Está tudo a acontecer muito rápido.

Porque é que o clima português é importante? A exposição solar afecta mesmo que se plante em interior?
Sim, queremos luz solar. A parte interior das instalações é muito pequena, é para as plantas-mãe, que são o nosso bem mais precioso e valioso. Assim, teremos menos de 500 plantas em interior e tudo o resto estará no exterior, em estufas de vidro. Preciso de fazer a conversão… mas deverá ser um total de dois hectares de estufas de vidro.

E quanto a plantação em exterior?
Isso é algo que estamos a analisar. Gostaríamos de fazer um pouco de investigação e desenvolvimento sobre várias técnicas, com base em coisas que vimos pelo mundo fora.

Que genéticas trouxe para Portugal?
Nas nossas instalações no Canadá produzimos mais de 50 genéticas diferentes de plantas de canábis. Algumas têm um teor de THC muito elevado e um teor muito reduzido de CBD, outras têm proporção 1:1, outras têm um teor muito elevado de CBD e praticamente nenhum THC, outras genéticas e estirpes têm um teor elevado de certos canabinóides ou terpenos. Exportámos 50 tipos diferentes de genéticas, o que implica um processo muito complicado de exportação de plantas vivas do Canadá para a UE. Mas já cá estão e agora estamos a cultivá-las dos 10 cm até um metro de comprimento e esse é um processo demorado.

Quantos medicamentos tem a Tilray, com diferentes concentrações de CBD, THC e outros terpenos?
Céus! Penso que devem ser aproximadamente 100. Temos 27 tipos diferentes de extractos, desde flor inteira e flor moída até cápsulas, óleos de espectro total e ainda uma grande variedade de produtos clínicos e óleos purificados.

Com diferentes concentrações…
Sim, com diferentes concentrações, teores de THC elevados, médios e baixos; teores de CBD elevados, médios e baixos; e temos ainda uma combinação de THC e CBD em teores elevados, médios e baixos.

Alguns dos produtos que a Tilray exporta para 25 países de todo o mundo

Em Portugal os médicos não têm ainda qualquer experiência na recomendação de canábis medicinal. No futuro, quando a canábis medicinal for legal, como é que os médicos vão ter formação sobre todos estes produtos?
Há sempre um trabalho de educação a fazer. Estamos a trabalhar intensamente na educação de médicos na Alemanha. A investigação médica ajuda, pois podemos usá-la como referência e temos também médicos canadianos, que trazemos para a Alemanha para explicarem a canábis medicinal aos médicos. Há alguns produtos à base de canábis em Portugal o Sativex…

“O facto de João Goulão e o governo terem descriminalizado as drogas, fez com que Portugal tenha uma experiência tremenda e seja um exemplo em todo o mundo”

Só temos o Sativex.
O Dronabinol não existe aqui?

Penso que não, mas mesmo o Sativex, os médicos não o prescrevem, por isso as farmácias não o têm… Ou seja, na prática não existe.
OK.

A Tilray apoia a legislação canadiana que permite o auto-cultivo para pacientes de canábis medicinal?
Sim.

Apoia-os?
Aham.

Em Portugal, há casos de pacientes que cultivam para consumo próprio e que estão a enfrentar processos em tribunal, porque continua a ser ilegal. Na Alemanha e no Brasil há pessoas que já estão a ser autorizadas pelos tribunais a cultivar para tratar certas doenças, portanto o auto-cultivo será algo de que realmente vamos precisar no futuro. Acha que faz sentido?
Em certos lugares é a lei que determina o direito dos pacientes a cultivar este produto. Nesses lugares, apoiamos muito isso. Nos países com legalização medicinal que não o permitem, isso deve-se essencialmente ao facto de os médicos procurarem canábis que possa ser tratada como qualquer outro medicamento. Para que um médico faça a prescrição precisa de compreender a potência e a dosagem, e é muito difícil para um médico recomendar um produto que um paciente esteja a cultivar em casa. Por isso vemos modelos diferentes em todo o mundo, com base no que é apropriado em contextos culturais específicos. Não sei o que é aceitável aqui, em Portugal.

Foto: DR (Retirada do Twitter de Brendan Kennedy)

Mas se pessoas fossem autorizadas a cultivar, isso não lhe causaria incómodo?
Não, de modo algum.

A Cannativa, a nossa associação, tem a preocupação de que a presença de grandes empresas como a Tilray, por exemplo, possam tornar muito difícil a futuros investidores portugueses competir e crescer neste mercado.
Não existe mercado em Portugal.

Mas haverá no futuro, se a legalização se tornar realidade.
Sim, é um produto interessante. No Canadá há 60 produtores com licença de canábis medicinal. A Tilray é grande e intervém a nível global, mas há empresas muito maiores que nós que intervêm exclusivamente no Canadá. Há entre 20 e 30 empresas de pequenas dimensões que se centram na produção mais artesanal ou caseira, dedicadas a genéticas muito específicas, geralmente genéticas muito difíceis de cultivar e que são procuradas por grupos muito específicos de pacientes. O Canadá é, de facto, o único país no mundo que tem este enquadramento, por isso é o único exemplo que posso citar, mas eu sugeriria que qualquer pessoa que tenha essa preocupação ponha os olhos no Canadá, onde há muitos tipos de empresas, com dimensões muito variadas, que se centram numa grande variedade de produtos e isso deverá apaziguar as suas preocupações.

Mas em Portugal esse mercado ainda não existe. No futuro, como é que prevê que as empresas invistam neste mercado?
Não sou capaz de responder a essa pergunta.

Não pode dar conselhos aos seus futuros concorrentes?
Não é isso. A questão é que não há mercado. Mesmo que alguém obtivesse uma licença em Portugal, poderia não ser nosso concorrente, desde que exportasse para locais diferentes dos nossos.

“Cresci em São Francisco, na Califórnia, onde havia muita oferta de canábis, mas consumo com pouca frequência”

Mudou-se para Portugal?
Não, não me mudei para cá.

Mas vem cá com frequência?
Sim, venho cá muitas vezes.

Está sempre a viajar?
Sim, estou a sempre a viajar. Fiz 300 mil milhas no ano passado, o que equivale a 12 voltas ao mundo.

É consumidor de canábis?
Actualmente, não. Em primeiro lugar, toda a nossa produção é para fins medicinais e eu actualmente, não tenho uma necessidade medicinal. Eu cresci em São Francisco, na Califórnia, onde havia muita oferta de canábis, mas consumo com pouca frequência. Viajo muito, estou sempre muito ocupado, constantemente a atravessar fronteiras internacionais, e portanto sou muito cuidadoso.

O que diria aos seus filhos se dentro de 15 anos sentissem curiosidade por experimentar canábis?
Penso que é a mesma conversa que os pais têm que ter acerca de coisas como o álcool. Já vi o álcool fazer muito mal a muita gente que me era chegada, por isso falaria com eles sobre consumo responsável e faria referência aos nossos produtos, que são disponibilizados a mais de 25 mil pacientes em todo o mundo. Uma das principais recompensas que tenho é ler uma carta ou um e-mail da mãe de uma criança que sofre de epilepsia, ou de alguém que está a fazer quimioterapia, ou de alguém que está a sofrer de dor crónica. Portanto, essa é talvez a minha maior recompensa. Teria também essa conversa com os meus filhos, é um produto estranho que… Não é um produto estranho! É um produto singular, que tem uma gama muito ampla de utilizações, e explicaria às minhas crianças essas diferentes utilizações.

Foto de Destaque: Direitos Reservados

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