Editorial — Newsletter #2 — A canábis saiu do armário

Nunca a canábis recebeu tanta atenção dos Media e muito menos pelas razões actuais. Criação de emprego, investimento estrangeiro, alto potencial terapêutico e investigação científica são termos que começam a surgir em notícias associadas à planta, senão em maioria, pelo menos em igualdade com palavras como tráfico, crime ou problemas de adição.

Esta mudança de discurso contraria claramente a tendência dos últimos anos, durante os quais a imprensa se concentrou essencialmente nas facetas negativas da utilização da planta, nomeadamente no tráfico ilegal e efeitos colaterais que resultam da política proibicionista e da inexistência de um mercado regulado para suprir a procura para uso recreativo ou medicinal.

É certo que a alteração da narrativa encontra espaço devido à oportunidade política criada pelo debate internacional sobre a (in)sustentabilidade da política proibicionista, sobretudo após o seu mentor (e maior patrocinador internacional da guerra às drogas), os Estados Unidos da América, terem legalizado ou regulamentado a utilização medicinal em mais de metade dos seus Estados.

Entretanto, o debate chegou a Portugal para ficar. A canábis é regularmente notícia nos órgãos de comunicação social, existe debate nas redes sociais, com vários grupos no Facebook e fóruns com dezenas de milhares de seguidores. As caixas de comentários das notícias de jornais são inundadas por opiniões de leitores pró e contra a legalização e regulamentação do mercado. A sociedade começa finalmente a trazer à luz um debate que permaneceu durante décadas na sombra da vergonha, do medo e do estigma social.

O evento catalisador mais recente, que catapultou a canábis como recurso de elevado potencial económico para as primeiras páginas dos jornais portugueses, parece ter sido o anúncio da instalação da multinacional canadiana Tilray em Cantanhede, com um investimento superior a 20 milhões de euros e criação de 100 empregos directos. A Cannapress foi então falar com Brendan Kennedy, CEO da Tilray, que nos explicou como está a criar toda uma unidade de investigação, produção e transformação de canábis medicinal para exportar para a União Europeia.

É caso para dizer que a canábis saiu à rua. No espaço de menos de um mês Lisboa recebeu a Lisbon Adictions 2017, uma conferência internacional sobre adições organizada pelo SICAD, a Tilray anunciou, na fervilhante Web Summit, a plantação de mais de 100 mil pés de canábis de 50 genéticas diferentes, e João Carvalho apresentou ao país a Cannadouro, a primeira Feira Internacional do Cânhamo e da cultura canábica, na Alfândega do Porto.

O evento deu a conhecer empresas portuguesas e estrangeiras no sector legal da canábis, demonstrou o potencial do mercado associado à produção, transformação, comercialização e consumo da planta e debateu o seu potencial medicinal. O Bloco de Esquerda aproveitou a Cannadouro para anunciar uma Audição Pública sobre a legalização e Moisés Ferreira apresentou as iniciativas legislativas com vista à regulamentação da utilização de canábis para fins medicinais e recreativos.

Lá fora, uma Universidade de Jerusalém, em Israel, esgotou rapidamente o número de vagas para o primeiro curso sobre Canábis Medicinal, demonstrando uma aposta clara no potencial terapêutico da planta.

É caso para dizer que a canábis saiu, finalmente, do armário.

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Imagem de Destaque: DR

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