Miguel Guimarães: “Qualquer produto farmacêutico relacionado com a canábis deve ser vendido nas farmácias”

O Bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Miguel Guimarães, disse em entrevista à Cannapress que todos os derivados da canábis devem ser disponibilizados nas farmácias comunitárias, incluindo óleos e flores desidratadas.

Licenciado em Medicina pela Universidade do Porto em 1987, Miguel Guimarães tem 55 anos, foi Presidente do Concelho Regional do Norte da OM, Médico Urologista no Hospital de São João e venceu as eleições para Bastonário da OM para o triénio de 2017 a 2019, com mais de 70 por cento dos votos.

Miguel Guimarães falou com a Cannapress no final do debate sobre Canábis Medicinal que a própria OM organizou, no passado dia 18 de Abril, e aceitou o convite da Cannativa — Associação de Estudos sobre Canábis, para marcar presença na 1ª Conferência Portuguesa sobre Canábis Medicinal, que vai decorrer a 9 e 10 de Novembro em Lisboa, e que prevê a formação de médicos e profissionais de saúde.

A OM debateu hoje a Canábis para fins Medicinais. Qual o principal objectivo desta iniciativa?
Em primeiro lugar, quero agradecer a vossa presença neste debate que teve lugar aqui na Ordem dos Médicos, porque foi um debate importante, onde foram ditas várias coisas essenciais. Acho que este debate trouxe à discussão praticamente todos os temas que podem ter importância na questão da canábis, desde o seu uso terapêutico e benefícios aos potenciais efeitos colaterais. Também o facto de Portugal – e esta é uma visão que eu considero interessante – ter um clima ideal para o cultivo da canábis. Isso já está a acontecer com empresas estrangeiras, mas se acontecesse com empresas portuguesas seria melhor para o país, seguramente. Mas nós podemos, de alguma forma, vir a tomar a iniciativa e liderar a investigação na via dos canabinóides, porque a via dos canabinóides tem grandes potencialidades. Nós temos todos a sensação que ela existe, até pelo que são as experiências privadas que cada pessoa tem tido em alguns tipos de doenças, e portanto existe uma imensidão de potencialidades relacionadas com o nosso país que podemos aproveitar. Isso foi bem realçado por algumas pessoas que estavam na assistência e por isso acho que o debate acabou por ser muito útil.

Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos, em entrevista à Cannapress. FOTO: Miguel Schmitt // Cannapress

Sabendo que o Dr. Miguel Guimarães não se quer alongar muito em questões que tenham a ver com canábis medicinal, já que remete o assunto para os colégios da especialidade, qual é a posição da Ordem dos Médicos nesta matéria?
Relativamente à posição da OM, neste momento vale aquela que foi tomada pelo Concelho Nacional da Política do Medicamento (CNPM) e pela competência em farmacologia clínica, que foi aprovada obviamente pelo Concelho Nacional da Ordem dos Médicos (CNOM), ao qual eu presido. É uma posição que é equilibrada neste momento, sendo favorável à utilização dos medicamentos derivados da canábis nas situações em que ela já tem evidência científica, que já são várias, não são tão poucas quanto isso. E curiosamente, nesse mesmo documento, nós já chamávamos a atenção que era importante, até porque temos condições para isso, de fazer investigação nesta área. E nós temos bons investigadores em Portugal, temos boas empresas, a nível de laboratórios farmacêuticos temos alguns, temos a Bial, que é já um grande laboratório e já produziu dois medicamentos, mas temos outros. E o próprio Estado português pode usar aquilo que são os investigadores que existem nos hospitais, nos Centros de Saúde, nos Institutos, para começar a potenciar a investigação nesta área, porque eu acho que isso tem futuro e é também uma via para o país em termos de desenvolvimento de novos medicamentos. E ao desenvolver novos medicamentos, novas formas terapêuticas inclusivamente, mesmo que não sejam comprimidos, pode ter um impacto positivo na própria economia, não de imediato, mas a médio prazo, e isso foi, aliás, realçado por algumas pessoas aqui presentes.

A OM já disse que é contra a forma fumada, mas tendo visto aqui também que existem outras possibilidades, como a forma vaporizada, concorda apenas com a utilização da canábis enquanto medicamento?
Há formas medicamentosas diversas que podem ser utilizadas, não é só o comprimido. Existem os óleos e alternativas que são igualmente eficazes. A questão da planta fumada em si, da planta original, é sempre uma questão mais complexa neste caso de indicação terapêutica. Por exemplo, aquilo que o sr. deputado do PSD falou é uma questão completamente diversa do que estivemos aqui a discutir hoje, o que não quer dizer que não deva ser discutida também, e é uma questão para os deputados levarem a sério, a questão do tráfico que se faz muitas vezes deste tipo de plantas, que é conhecido em todo o mundo, e aquilo que podem ser as vantagens e as desvantagens da legalização ou despenalização. Em termos práticos, neste momento nós não estamos em condições de poder ter um parecer favorável à canábis fumada, porque a canábis fumada não tem um controlo sobre os compostos da planta, aquilo que a planta em si tem e produz durante o fumo. Ou seja, não se conseguem controlar os princípios activos que podem ter efeito terapêutico positivo e os que têm efeitos colaterais.

Mas admitem a possibilidade de venda na farmácia das flores desidratadas para vaporização, como já acontece noutros países?
Acho que qualquer produto farmacêutico relacionado com a canábis deve ser vendido nas farmácias.

“Há um medicamento [Sativex] que nem sequer está disponível nas farmácias e tudo isto limita a utilização desta alternativa.”

Qualquer produto, mesmo as próprias flores?
Sim. Qualquer produto que seja indicado para tratamento efectivo deve ser disponibilizado nas farmácias, tal como acontece com todos os produtos à base de plantas, os medicamentos que nós conhecemos, os xaropes, enfim todas essas formas terapêuticas. E portanto, é regulamentar a venda. Outra questão, que também foi hoje aqui falada, é que, apesar de nós termos um medicamento derivado dos canabinóides [Sativex], a verdade é ele não está disponível de imediato, isto é, os médicos prescrevem-no pouco e como prescrevem pouco os laboratórios não o têm disponível e depois é a pescadinha de rabo na boca: se as pessoas usam pouco determinado tipo de medicamentos, os laboratórios não têm interesse em os ter aqui permanentemente, porque se estão a estragar. E depois há estes pedidos especiais através do Infarmed e isso atrasa muito estas situações.

A Cannapress tem acompanhado situações muito críticas de pacientes com dificuldades de acesso ao CBD (canabidiol), que só se consegue comprar em Espanha ou que fica retido na Alfândega quando se manda vir, por exemplo, dos Estados Unidos…
Essa é uma boa questão para colocar ao Infarmed. Repare porquê: nós já sabemos que existem vários medicamentos com derivados à base de canábis que são comercializados na Europa, foram autorizados pela Agência Europeia do Medicamento, e que são importantes em determinado tipo de patologias. Penso que a forma como esses medicamentos podem ser adquiridos deveria ser mais eficaz, mais célere. É verdade que se uma pessoa pedir a medicação, e se ela estiver disponível na Europa, o Infarmed consegue ter a medicação. Agora, não sei quanto tempo demora e o tempo pode ser excessivo. Se calhar tem que se arranjar um mecanismo mais célere para determinado tipo de medicamentos que não estão, de facto, disponíveis em Portugal. Isto porque os laboratórios farmacêuticos não têm interesse em ter disponíveis esses medicamentos em Portugal, pelo volume de negócio que implica no nosso país, porque é sempre um país mais pequeno. Isso acontece em várias áreas, não é só com os canabinóides.

Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos, em entrevista à Cannapress. FOTO: Miguel Schmitt // Cannapress

Mas esse não é o único problema. Outra questão premente é, por exemplo, a falta de acompanhamento médico dos pacientes que utilizam ou querem utilizar a canábis para fins medicinais…
Por isso é que são importantes estes debates. E eu acho que a informação e o facto de neste momento se ter iniciado a discussão pública — que não foi hoje, isto hoje foi uma gota de água no meio do oceano —, o facto de as pessoas pensarem sobre a matéria e terem documentos, assumirem posições, então nós começamos por ter uma posição, podemos mais tarde vir ou não a alterá-la e a Ordem dos Farmacêuticos também. Esta evolução e este debate, ir mais longe dentro daquilo que é a investigação nesta área, eu acho que é muito importante. Por isso é que eu acho que os contributos que hoje foram dados foram todos positivos, quer pelas pessoas que se centram mais na questão da fundamentação clínica, na investigação, etc., quer pelas pessoas que se fundamentam mais na sua experiência pessoal. Porque é sempre a evidência científica, das massas, a evidência que se pode ir retirar às bases de dados mundiais daquilo que são os trabalhos que estão ou não estão publicados, e aquilo que é a evidência individual. Até porque muitos médicos têm a sua experiência individual. Os médicos em Portugal usam pouco os derivados dos canabinóides e provavelmente também por desconhecimento, porque acham que não têm ou porque não costumam ouvir falar deles, e então não estão particularmente vocacionados para essa área. De facto, os medicamentos também não são muito promovidos. Há um medicamento [Sativex] que nem sequer está disponível nas farmácias, portanto tudo isto limita também a utilização desta alternativa.

E como é que se resolve este impasse?
Assim, como nós estamos a fazer. A debater, a falar, que é para as coisas começarem a ganhar uma dimensão diferente. E eu acho que é uma área importante, que deve ser mais falada, e vamos voltar a ela.

A Cannativa está, aliás, a trabalhar nesse sentido, na organização de uma Conferência com Workshops para médicos e profissionais de saúde. Convidámos o Ethan Russo, neurologista e farmacologista que desenvolveu, por exemplo, o Sativex para a GW Pharmaceuticals, e ele já confirmou a sua presença, a 9 e 10 de Novembro.
Muito bem. A gente lá estará.

Miguel Guimarães em conversa com colegas no jardim da Ordem dos Médicos, em Lisboa. Foto: Miguel Schmitt // Cannapress

Gostávamos muito de o convidar, desde já, a estar presente nesta Conferência.
Terei o maior gosto em estar presente.

Acha que a OM poderia ajudar também na divulgação desta Conferência pelos médicos?
Sim, podemos ajudar, com certeza que sim. Repare, nós hoje fizemos questão de ter aqui várias pessoas presentes, nomeadamente pessoas com experiência pessoal. Aquela minha colega de Espinho, a Ana Rita, que é Interna de Medicina Geral e Familiar, veio hoje dar o seu testemunho enquanto médica e paciente, teve de fazer 600 km, mas nós tentamos ter o máximo de visões diferentes, das Ordens, das Instituições, dos médicos, dos farmacêuticos, do Infarmed, que tem aqui uma responsabilidade grande em termos daquilo que é o circuito dos medicamentos e que tem um papel importante naquilo que é a investigação feita em Portugal. E depois ter a experiência das pessoas. Dos médicos, a nível pessoal, e dos doentes. Estiveram aí alguns doentes e pelo menos dois eram médicos, mas houve pessoas que estiveram só a assistir e acho que o debate acabou por ser positivo. Mas a canábis é uma questão que tem de ser discutida e acho que este é um bom princípio.
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Foto de destaque: Miguel Schmitt // Cannapress

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