Resumo da Asian Hemp Summit: um continente em rápida expansão

O bom posicionamento da Ásia para abraçar o cânhamo, permite que este continente o faça de uma forma inovadora e única. As diferentes partes interessadas, tiram os proveitos económicos a partir da rica diversidade genética que a planta do cânhamo exprime em todo o continente.

Essa foi a principal conclusão da Cimeira Asiática do Cânhamo, realizada no início deste mês em Kathmandu, no Nepal. O evento juntou mais de 100 participantes ​​de 25 países em todo o mundo, que se reuniram para discutir e analisar as oportunidades nas potenciais nações produtoras de cânhamo da Ásia.

E a inovação está a acontecer em grandes e pequenas empresas – encontravam-se no evento desde gigantescos consórcios industriais da China até startups emergentes na Índia.

Cartaz do evento

Descoberta contínua

No evento foram alvo de discussão vários temas pertinentes à produção de cânhamo, nomeadamente melhores rendimentos, melhor qualidade da fibra, melhor conteúdo de óleo de semente/proteína, resistência a doenças e mesmo perfis atractivos de canabinóides  que podem ser descobertos dentro das populações asiáticas de cânhamo.

Estas variedades ”tradicionais” são usadas por serem culturas de alta qualidade e com elevados rendimentos, mas principalmente com uma longa história de cultivo nas comunidades asiáticas, apesar do seu perfil de canabinóides mais “colorido”.

Embora a cadeia de valor moderna da produção de cânhamo exija a criação de variedades melhoradas, as variedades históricas da Ásia podem ser facilmente utilizadas para dar início às indústrias de cânhamo em todo o continente , com cultivaars autóctones que oferecem o potencial atractivo para a produção de variedades bem adaptadas às condições locais e à produção doméstica.

Preservar estas variedades e estabelecer bancos de genes e sementes bem administrados será fundamental não só para a conservação da biodiversidade da canábis, mas principalmente para a manutenção de características valiosas, à medida que o sector de cânhamo industrial asiático se desenvolve.

Outros resultados da cimeira:

China

Apesar de suas severas leis antidrogas, as autoridades chinesas têm fechado os olhos para algumas áreas de produção, para que a República Popular  Chinesa se torne líder mundial na produção de cânhamo.

À esquerda, Paul Benhaim e à direita, um dos organizadores da cimeira, Kehrt Reyher

Através de parcerias internacionais e programas governamentais, os chineses estão a criar novas variedades de cânhamo, com recurso a tecnologias modernas e utilizando os seus extensos recursos genéticos, criando variedades de alto rendimento que funcionam sob uma gama diversificada de condições.

Ao mesmo tempo, o cânhamo chinês está a ser sujeito a pesquisas intensivas, nomeadamente relativas ao cultivo, aos métodos e equipamentos de colheita e as aplicações que vão da nanotecnologia aos materiais de construção.

Mas a China é, por outro lado, também um pouco misteriosa, ponto onde os delegados da cimeira concordaram com unanimidade. A indústria chinesa de cânhamo é notoriamente secreta e os delegados concordaram que, para a China se integrar melhor na indústria a nível global, necessita mais transparência.

Adicionalmente, algumas preocupações foram levantadas pelos participantes sobre o uso de sementes de cânhamo geneticamente modificadas na China, bem como a falta de protecção à propriedade intelectual no país. Apesar dessas desvantagens, foi unânime que todo o conhecimento excepcional e as pesquisas Chinesas poderão ser benéficas para a indústria de cânhamo em geral, se houver um esforço e articulação para levar a cabo investigações e colaborações significativas e internacionais.

Embora apenas seja possível saber um pequeno fragmento daquela que é a pesquisa e desenvolvimento a ser conduzidos no país, os vislumbres revelam que esses esforços são bem financiados, com a visão de futuro e com rápida progressão – com muitos dos participantes da Cimeira a expressar a sua surpresa com o âmbito e o ritmo do progresso chinês.

Índia

As partes interessadas indianas estão determinadas a recuperar a rica história de cânhamo do seu país e capitalizar o potencial da planta para o desenvolvimento económico. Há muito interesse entre os empreendedores, e a vontade de trabalhar no sector do cânhamo expandindo-o em iniciativas mais amplas e sociais, que ajudem as pessoas, é algo muito forte na Índia.

Patrocinadores da Asian Hemp Summit

Entre os delegados da Cimeira que representavam a Índia, foi unânime a necessidade de operar na Índia de forma diferente do resto no mundo. Ao passo que a abundância de matérias-primas oferece um potencial real e impar para o desenvolvimento das economias rurais na Índia, há, no entanto, sérias dificuldades no acesso às mesmas matérias-primas, ponto destacado várias vezes quer por oradores quer por participantes.

A Índia está, neste processo de legalização, alguns anos atrasada face aos EUA e à Europa em geral – o que dá ao país uma oportunidade de aprender com as experiências internacionais de forma a estabelecer boas regulamentações para a indústria. Há também na Índia uma enorme lacuna no conhecimento dos processos envolvidos na importação de produtos para o mercado.

As áreas em que os investidores em cânhamo indiano esperam encontrar retornos são em empreendimentos em cultivo, pesquisa e outras áreas fundamentais nesta indústria. Existem entidades governamentais indianas que investigam todos os pedidos relativos ao cânhamo industrial, incluindo produtos médicos e de saúde, como o CBD. Apesar se ser possível entrar neste mercado, ainda existem muitas nuances para clarificar relativamente à regulamentação indiana, e não é prestado ainda qualquer tipo de suporte aos interessados por parte das autoridades competentes.

Japão

Apesar de um potencial de produção modesto, há um crescente entusiasmo pelo cânhamo, uma cultura antiga no Japão. 

As partes interessadas veem um enorme potencial no mercado do consumidor, e já está projectada a necessidade de importações significativas para o país, à medida que aumenta a conscientização sobre os produtos de cânhamo – especialmente em alimentos e nos benefícios medicinais feitos a partir do cânhamo. Os entusiastas locais estão “de mangas arregaçadas”,  a trabalhar para transmitir as tradições do cânhamo e cativar jovens empreendedores para o sector.

Cazaquistão

O cultivo de cânhamo no Cazaquistão continua em expansão e, no ano passado, o Ministério da Agricultura contabilizou cerca de seis quilómetros quadrados de cânhamo, cultivados na região sul de Almaty. As expectativas são de aumentar para 40 quilómetros quadrados este ano.

Steve Allin, da Associação Internacional de Construção com Cânhamo

Actualmente, as sementes colhidas são exportadas para a Holanda, enquanto que a fibra é exportada para a Rússia e China, embora haja abertura das autoridades do Cazaquistão para explorar novos mercados.

Mongólia

O governo da Mongólia está a desenvolver um plano estratégico para a agricultura, que ambiciona ser um modelo de crescimento económico para o país – e o cânhamo encaixa-se perfeitamente nesta reforma.

As novas políticas, destinadas a criar postos de trabalho e diversificar a economia do país, concentram-se na sustentabilidade, inovação e novas tecnologias, são um importante impulsionador dos programas de financiamento público – e dão um importante incentivo ao sector agrícola. 

Com engenharia e know-how agrícola, nesta fase de rápido desenvolvimento da Mongólia, os primeiros participantes podem explorar um rico conjunto de recursos humanos provenientes do sistema educacional historicamente forte do país.

Nepal

No Nepal, as habitações são construídas a partir dos caules produzidos a partir de “colheitas selvagens” locais, ao mesmo tempo que as fibras são utilizadas para a indústria têxtil ao passo que as sementes são utilizadas para produzir óleos de semente de cânhamo bem como extratos para cosméticos.

Amostra de produtos na Asian Hemp Summit

Paquistão

No Paquistão, é produzido com sucesso óleo de semente de cânhamo de variedades de alto rendimento, mas sub-domesticadas, com uma quantidade apreciável de óleo – até 31,5% – de cânhamo silvestre que cresce nas regiões montanhosas e repleta de proteínas, quando comparada com o tradicional cânhamo industrial (leia-se: baixo THC). É difícil quantificar o rendimento/hectare, já que muito não existem rigorosos testes agrícolas para estas variedades.

Coréia do Sul

As importações para o país asiático estão a aumentar rapidamente com os consumidores sul-coreanos a serem rapidamente levados para os alimentos de cânhamo como um substituto do óleo de peixe, e estimulados pela adesão dos consumidores a alimentos de cânhamo impulsionados principalmente por programas de tele-marketing. Junto com os alimentos, o cânhamo tem sido uma fonte de tecido para a Coréia desde os tempos antigos.

Tailândia

Com o governo tailandês a permitir o cultivo de cânhamo para fins de pesquisa, os empreendedores estão a incorporar esta planta multifacetada nos seus produtos, exportando-os para todo o mundo.

Os campos de cânhamo ainda são fortemente regulamentados e apenas para fins governamentais. Esta realidade deve mudar, de forma a conseguir dar resposta à procura local por tecidos de cânhamo.

Apresentação de Wolf Jordan

Outras questões discutidas:

Colaboração global

Há uma grande necessidade de a indústria do cânhamo colaborar mais, através da partilha de ideias e conhecimentos em todo o mundo. O encontro entre os vários interessados – da agricultura à tecnologia, marketing e comunicação – pode desencadear um crescimento em geral para toda a indústria. E a indústria tem uma responsabilidade particular de promover o desenvolvimento do cânhamo como um impulsionador econômico dos países.

Os jogadores inescrupulosos

Os delegados expressaram a sua preocupação com o actual boom no CBD, e com a presença crescente de operadores questionáveis, que comercializam produtos inferiores.

Esta realidade, em parte, exige mais investimento nas análises independentes de produtos para garantir a segurança do produto para o consumidor, juntamente com uma razoável supervisão por parte dos orgãos reguladores.

Estes operadores inescrupulosos devem também ser identificados publicamente, quando possível, e as associações e outras organizações devem estar activas para ajudar a separar os comerciantes desonestos dos legítimos.

Confusão Prolongada

Também concluiu-se que a confusão sobre a “canábis” e o cânhamo persiste em todo o mundo e a organização pediu um esforço maior da indústria para superar esta injustiça histórica implícita.

Relatórios do setor

O perfil do cânhamo está a crescer rapidamente, impulsionado principalmente pela comunicação social nos EUA, onde o potencial desta cultura é propagado pelos jornais e sites da comunidade agrícola local, bem como pelas principais redes de negócios e outros meios de comunicação nacionais. Esta popularização pode espalhar-se para outras nações ao redor do mundo, mas são necessárias fontes de informação no idioma local.

Comunicações de marketing

As partes interessadas do sector de cânhamo não têm, geralmente, um gabinete de comunicação e marketing, e prejudica particularmente as pequenas e médias empresas, que em contraste com grandes empresas, que aproveitam o paradigma para desenvolver conteúdo rico para uma maior retenção do mercado.

As redes sociais

Os delegados da Cimeira expressaram a sua frustração com a proibição da propaganda de produtos de cânhamo nas principais plataformas de redes sociais. Muitos empresários acham que isso está a limitar o seu alcance bem como as oportunidades de expandir os seus negócios nos sectores em que o cânhamo tem capacidades de ser um concorrente de mercado.

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